Techint

Poucos setores da economia brasileira sofreram mais na última década do que a construção civil. A longa recessão, que se aprofunda desde 2014, a redução dramática de investimentos e as investigações da Operação Lava-Jato produziram um cenário desolador, com a quebra de grandes grupos e o encolhimento de outros. Um cenário no qual só podem mesmo sobreviver os obstinados. Como tantas outras, a Techint Engenharia e Construções, empresa do grupo Techint, sofreu os efeitos dessa tempestade perfeita que se abateu sobre um setor habitualmente próspero e ocupado, que, no entanto, vem recuando há cinco anos; em 2018, respondeu por 4,5% do PIB nacional, contra 4,8% em 2017. Como tantas outras, poderia ter enxugado o negócio e se limitado a esperar a retomada do crescimento. Mas havia algo diferente na Techint, que não apenas manteve a construtora na superfície, como ainda a impulsionou em meio a mares bravios rumo a dias melhores. E, como no caso dos romanos, ali também a inovação teve papel marcante.

A Techint nasceu na Itália em 1945. Seu fundador, Agostino Rocca, lutou na Primeira Guerra Mundial (1914-18) e, uma vez estabelecida a paz, decidiu estudar engenharia. Hábil e talentoso, inovador e perseverante, chegou a diretor industrial de uma grande companhia italiana e tornou-se a grande força por trás do desenvolvimento da indústria do aço na Itália nos anos 1930. Mais tarde, decidiu tentar a sorte na América do Sul, “o novo mundo” – onde poderia encontrar “o pote de ouro que enriquece ou a miragem que leva à ruína”, segundo o livro O Desafi o do Aço – Vida de Agostino Rocca, de Luigi Off eddu (Fondazione Dalmine). Agostino deixou a Itália ao fi nal da Segunda Guerra (1939-1945), logo após instalar, em Milão, o primeiro escritório da Companhia Técnica Internacional, que se tornaria Techint por sua abreviação telegráfica. Imigrou para a Argentina, onde já tinha costurado uma sociedade com um empresário local, e estabeleceu em 1946 o primeiro braço sul-americano de sua companhia.

Uma vez em Buenos Aires, só lhe restava dar certo. Para isso, Agostino precisava de uma obra. Ofereceram-lhe a possibilidade de construir o gasoduto que traria gás do sul do país e aceitou. O sistema foi inaugurado em 1949.

Durante a jornada que o levou à Argentina, Agostino fez escala no Brasil, país que lhe pareceu fervilhante a ponto de, em 1947, inaugurar em São Paulo um braço da empresa recém-fundada. O DNA de inovador logo lhe angariou obras no país que crescia e perseguia o progresso. Em Minas Gerais, a Techint Engenharia e Construção fez o projeto da central de Salto Grande, no rio Santo Antônio, e a linha Salto Grande-Santa Lúcia, no rio Casca. Realizou ainda o sistema de oleodutos Santos-São Paulo. Todo o projeto da hidrelétrica e de eclusa de Barra Bonita, no interior paulista, foi executado pela construtora, que empregou aqui a técnica de parede diafragma: painéis de concreto, quase sempre armados, que são pré-fabricados ou moldados no local para conter escavações no subsolo. As obras foram iniciadas em 1957 e a primeira turbina foi acionada em 1963. Há 72 anos no Brasil, portanto, a Techint Engenharia e Construção é a mais antiga empresa de controle de capital internacional atuando de modo ininterrupto no Brasil na área da construção. “A inovação sempre foi o nosso fator de diferenciação”, informa o diretor-geral da companhia no Brasil, Ricardo Ourique. “Queremos entrar em cada um de nossos empreendimentos para vencer e sair como a empresa que deixou um legado. Queremos que nos contratem para a próxima obra, porque oferecemos o novo ‘engenheirado’, nunca o novo a qualquer custo.” Em 2018, Techint Engenharia e Construção empregava mais de duas mil pessoas no Brasil, com faturamento anual de 669,3 milhões de reais.

A empresa forte de hoje foi se forjando ao longo de crises diversas, sempre acreditando na vitória. As mais recentes são, também, as mais memoráveis. Em 2011, a Techint Engenharia e Construção foi contratada pela OSX Brasil, empresa do Grupo EBX, para construir duas plataformas na zona portuária do Paraná. Uma delas já estava quase pronta quando, em 2013, em meio à quebra do EBX, o contrato foi cancelado. “Era o principal cliente que tínhamos à época”, recorda Renato Andrade, gerente de Qualidade, Meio Ambiente, Segurança e Saúde Ocupacional no Brasil. “Não houve pagamento e tivemos uma exposição muito grande.” Para Ricardo Ourique, diretor-geral, “a grande lição que tiramos é que tínhamos que olhar para a frente”.

E a Techint olhou. Antecipou a crise que se instalou com força em 2013 e apresentou-se redonda, enxuta e pronta para o desafi o seguinte: a construção da plataforma P-76, que entrou em operação no início de 2019 no campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos, com capacidade para processar até 150 mil barris de óleo por dia. A empresa chegou a ter cinco mil funcionários trabalhando na plataforma. A operação exigiu inovações incessantes, desde o processo de extração de petróleo, por meio da instalação de estruturas conhecidas como bocas de sino, até formas mais simples para descarte de resíduos. Muitas dessas iniciativas saíram do Programa de Inovação interno que possibilita a qualquer um cadastrar uma ideia. Foi assim com o projeto de um pórtico móvel visualizado e desenvolvido por um funcionário, Wilson Rosa, para agilizar a montagem das tubulações sobre a estrutura da plataforma. Rosa fez o desenho de sua inovação, apresentou-o à gerência, obteve aprovação e o pórtico foi não apenas construído, como exportado para outros países e premiado internamente.

Que qualquer profi ssional possa trazer ideias que otimizem processos e custos diz muito sobre o ambiente estimulante e amigável à inovação que se instaurou na Techint desde 2013, quando a área ganhou forte impulso. “Sempre privilegiamos o aporte de ideias, com um processo de formação de multiplicadores internos”, explica Renato Andrade. “Se uma empresa mantém viva essa cultura de inovação, em algum momento um projeto disruptivo vai aparecer.”

Vale mencionar ainda o “3D além da engenharia”, tecnologia que leva informações de plantas industriais para a palma da mão dos operários no chão de fábrica em tablets e smartphones. Esse projeto conquistou o primeiro lugar na premiação 100+ Inovadoras, realizado pela IT Média, na categoria Indústria de Engenharia e Construção. Também na P-76 foi utilizada o EPCPlan, ferramenta de planejamento e controle disponível por meio de aplicativo para celular que atualiza o avanço da obra. Anteriormente, esses dados eram coletados por uma equipe de apontadores que usava planilhas impressas. A ferramenta inovadora integrou as áreas e reduziu a possibilidade de erros. Deu tão certo que foi exportada para projetos na Argentina, México, Chile e Peru.

A P-76 reequilibrou a Techint, mas, com a crise do setor de construção, sobrevieram novos desafi os. Nas palavras do diretor-geral: “Há três anos, estávamos muito focados na indústria do petróleo e mineração. Nesse cenário, nos perguntamos quem poderiam ser nossos novos clientes e o que teríamos a oferecer a eles. Reafi rmamos nossa identidade como empresa que prefere vender um produto integrado: fazemos a engenharia, o fornecimento de materiais e equipamentos, além da montagem eletromecânica e o comissionamento para a entrega ao cliente”.

Estratégia definida, vieram novas obras, entre elas a execução de uma central térmica no Maranhão. Novamente, a inovação com conhecimento trouxe competitividade, custo menor e redução de exposição a acidentes.

Então, em dezembro de 2017, a Techint enfrentou a finalização de suas obras sem perspectiva clara de novos contratos. “Novamente nos reunimos para defi nir para onde estava caminhando o mercado de energia. Juntamos todas as informações que obtivemos e montamos uma estratégia. Fizemos um novo trabalho de inteligência que mudou nossa empresa”, relata Ricardo Ourique. Sem se abater pela realidade dura do mercado de construção, os profi ssionais da Techint empenharam-se em provar sua capacidade interna, fi nanceira e de inovação. Em um ano, cinco novos contratos foram assinados. “Entendemos que as crises são combustível para a mudança, e que, nessa mudança, nosso DNA de inovar e vencer é o diferencial”, conclui o diretor. “O importante é ter sempre tenacidade.” 

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